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Primeiras histórias de verão

Luis Fernando Verissimo

1. O JUSTO

Justino. Todos o chamavam de “Justo”. E ele era. Um homem sério, ponderado, um paradigma moral. Tanto que Gelson, um dos seus admiradores, toda vez que o via na rua, gritava:

- Paradigma! Paradigma!

E foi Gelson que, um dia, procurou o Justino para se aconselhar. Marcaram um encontro num bar. Gelson desconfiava que a mulher, Francilene, tinha um amante. Não sabia ao certo, só desconfiava. O que deveria fazer? Confrontar a mulher? Perguntar se era verdade e – no caso de a resposta ser “Sim, tenho, tenho, e daí?” – perder toda a sua crença na humanidade, a começar pela Francilene, ou não tocar no assunto, aprender a conviver com a suspeita de infidelidade e conservar, pelo menos, seu casamento? Sim, porque se Francilene confirmasse o amante, o casamento estaria destruído. E se não confirmasse, o fato de Gelson ter desconfiado dela teria o mesmo efeito. O que fazer? Só alguém sério e ponderado como o Justino, só um justo saberia responder.

Justino sempre limpava a boca depois de um gole de chope, para prevenir o bigode de espuma que comprometeria sua imagem sóbria. Foi o que fez, antes de responde a Gelson.

- Você não precisa perguntar à Francilene. Seu casamento não precisa ser destruído, nem por ela dizer sim, nem por você ter feito a pergunta. Eu posso lhe dizer se ela tem um amante ou não. Tem. Faça o que quiser com esta informação.

- E quem é o amante?

- Sou eu.

Durante três, talvez quatro minutos, Gelson ficou de boca aberta olhando para Justino. Depois pôs-se de pé, virando sua cadeira. Mas não para agredir Justino. Com a sua franqueza, com a sua consideração, Justino tinha preservado sua crença na humanidade. Francilene podia ser infiel, todas as mulheres podiam ser infiéis, mas ainda havia gente confiável no mundo. E Gelson começou a andar em volta de Justino, gesticulando e gritando, entusiasmado:

- Paradigma! Paradigma!

2. O REENCONTRO

Dizem que os amores de verão não costumam durar mais do que o bronzeado, mas não foi o caso com aqueles dois, que quando se reencontraram na praia este ano se jogaram nos braços um do outro com uma paixão que até os assustou um pouco, afinal, o verão passado tinha terminado com troca de endereços, vê se não me esquece, não esqueço não, vai esquecer sim, vou não, e beijinho, beijinho, nada parecido com aquele beijão no reencontro, quase um acidente, dente contra lábio, depois os dois rindo enquanto ele cuspia um pouco de sangue na areia, os dois se perguntando o que é isso, meu Deus, ele pensando eu nem me lembrava bem do rosto dela e agora estou até emocionado, ele pensando vamos com calma, vamos com calma, o que é isso, meu Deus? E naquela noite se perguntaram tudo que não tinham se perguntado no verão passado, do que você gosta, do que você não gosta, este piercing no umbigo é novidade, não dói? E mais beijos apaixonados, beijos meio desesperados, apesar de o lábio dele ter inchado um pouco, e quando se separaram de madrugada até a palavra “casamento” tinha sido dita, tão eterno era o amor dos dois. Mas na manhã seguinte se encontraram na beira do mar, conversa vai, onda vem, como está o lábio, bem, bem, minha mãe perguntou se eu tinha caído da bicicleta, só acho que não dá pra beijar e ela disse melhor porque ontem, não sei não, não sei o que deu na gente, né, vamos com calma, vamos com calma, e ele concordou, afinal o verão está só começando é melhor baixar a bola e ela disse isso, sábias palavras, baixar a bola, e um entrou no mar e o outro foi comprar um picolé.


Domingo, 7 de janeiro de 2007.



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